Comumente apontada entre os principais eventos sociais e políticos do século XIX (Independência, Abolicionismo e República) a maçonaria tem despontado na historiografia como um importante espaço de sociabilidade e de divulgação de idéias liberais/ilustradas. De acordo com Eliane Colussi, a maçonaria poderia ser definida em termos gerais como uma espécie de associação fraternal organizada em torno de rituais e símbolos assentados em torno da questão do segredo e do aperfeiçoamento intelectual da sociedade, caracterizando-se pelas ações filantrópicas e por não orientar política e religiosamente os seus membros (COLUSSI, 1998: 24).
Reza a lenda que Hiram Abiff, filho de uma viúva da tribo de Neftali, era o mestre construtor do templo do rei Salomão e detentor de grandes talentos e virtudes. Sob a sua inspeção os operários da obra teriam sido divididos em três categorias: aprendizes, companheiros e mestres. O objetivo seria possibilitar uma espécie de promoção ao final da construção do templo, para que os companheiros mais dedicados pudessem ser elevados à categoria de mestres e assim pudessem retornar as suas respectivas pátrias em melhores condições do que antes. Aconteceu, porém, que um grupo de companheiros, que ainda não havia concluído seus estudos e tão pouco desfrutava da experiência necessária, resolveu obter a qualquer custo a “palavra sagrada” ou o “segredo” característico exclusivamente dos mestres que era então guardado por Hiram Abiff. Os companheiros assassinaram o mestre construtor, mas não conseguiram arrancar dele o conhecimento que tanto queriam. Numa perspectiva esotérica, a lenda explica a origem da maçonaria. Numa perspectiva histórica ela é apenas um dos elementos que nos ajudam a compreendê-la. Deste modo, a lenda de Hiram Abiff acaba sendo um recurso pedagógico e sociológico que pode ser entendido em seu conjunto de símbolos e alegorias ético-moralizantes que visam imiscuir valores nos membros da maçonaria através dos rituais e demais ensinamentos. Além do que, é dela que provém o termo filho da viúva então tomado como sinônimo de maçom. Outras teorias esotéricas e históricas poderiam ser enumeradas, mas fugiriam ao intuito desta pequena incursão.
De maneira geral, os maçons ou filhos da viúva se estabeleceram no Brasil no inicio do século XIX e tiveram tamanha atuação social que se tornou muito difícil referir certas conjunturas sem mencionar a atuação maçônica. Ainda segundo Colussi, os exemplos seriam muitos e perpassariam pela “independência, a abdicação de d. Pedro I, a difusão do pensamento liberal no Brasil, a questão religiosa, a luta pela separação Estado/Igreja, o abolicionismo, o movimento republicano e outros” (COLUSSI, Op. Cit.: 38). No Pará, a primeira loja foi estabelecida em 1831. Em meio a um conturbado contexto marcado pela memória recente dos acontecimentos em torno da Adesão do Pará à Independência do Brasil em 1823 – quando cerca de 256 presos políticos foram sufocados com cal no porão do navio Brigue Palhaço pelas forças legalistas de D. Pedro I –, da crescente insatisfação diante do descaso para com a região e das constantes nomeações de governos que excluíam as lideranças locais; foi estabelecida na capital paraense a loja maçônica Tolerância. Loja esta que quatro anos mais tarde seria completamente destruída pelos cabanos. E qual a razão disso? Provavelmente a relação feita entre maçonaria e elementos elitistas e estrangeiros.
Somente na década de 1950 a maçonaria paraense voltaria a se reorganizar, vindo a participar de outros eventos sociais importantes como a Questão Religiosa. Neste sentido, torna-se interessante revisitar as experiências da maçonaria na capital paraense para se ponderar a respeito das relações sociais estabelecidas pelos sujeitos ligados à instituição maçônica e aqueles que lhes faziam oposição.
FONTE:SANTOS, Alan C. S. Os filhos da viúva na região amazônica: uma pequena história da maçonaria paraense do século XIX, comunicação apresentada no II Seminário nacional de pós-graduandos em história da instituições, UNIRIO, 2009.